Dorian pegou na faca e olhou para ela. A lâmina ainda tinha vestígios de sangue seco. O sangue de Basil daquela noite terrível. Nunca tinha limpado a faca devidamente. Olhou para o retrato de novo. O rosto pintado parecia zombar dele. Mostrava cada pecado, cada mentira, cada crueldade. Este quadro era a sua confissão. Condená-lo-ia se alguém o visse. Tinha de o destruir esta noite. Mas primeiro, fez uma pausa para pensar. O que aconteceria quando o retrato fosse destruído? Acabaria a magia? Tornar-se-ia subitamente velho? Ou o retrato simplesmente deixaria de existir? Já não lhe importava. Estava cansado de viver com este segredo. Estava cansado de ter medo. O retrato tinha de ser destruído. Só então poderia recomeçar. Pensou em todas as pessoas que tinha magoado. Sibyl, que o tinha amado tão completamente. Basil, que fora o seu amigo mais verdadeiro. Alan Campbell, forçado a ajudar e depois destruído pela culpa. James Vane, morto enquanto procurava justiça para a sua irmã. E tantos outros de que nem sequer se lembrava. Jovens levados pelo mau caminho. Mulheres arruinadas e abandonadas. Vidas destruídas para seu prazer. Tudo registado no retrato. Cada linha, cada sombra, cada marca de decadência. Era o diário da sua alma. E agora arrancaria as páginas para sempre. Levantou-se, faca na mão. Caminhou em direção ao quadro. Os olhos pintados pareciam segui-lo. Eram os seus próprios olhos, mas retorcidos e maus. 'Perseguiste-me tempo suficiente,' sussurrou. 'Esta noite, acaba.' Levantou a faca alto acima da cabeça. Por um momento, hesitou. O rosto no retrato pareceu sorrir. Um sorriso horrível e cúmplice. Sabia o que estava para vir. E parecia quase satisfeito. Dorian não compreendia aquele sorriso. Mas não lhe importava. Com toda a sua força, cravou a faca na tela. Apunhalou o rosto pintado uma e outra vez. A tela rasgou-se com um som terrível. Então algo estranho aconteceu. Dorian sentiu uma dor súbita e terrível. Era como se a faca tivesse apunhalado o seu próprio coração. Gritou de agonia. A faca caiu da sua mão. Caiu no chão. A dor espalhou-se por todo o seu corpo. Tentou levantar-se, mas não conseguia mover-se. A sua visão começou a ficar turva. O quarto escureceu à sua volta. Podia sentir o seu rosto a mudar. A sua pele lisa estava a enrugar. O seu cabelo dourado estava a ficar grisalho. Dezoito anos de idade e pecado alcançaram-no. Tudo num único instante. O seu último pensamento foi para Sibyl. O seu rosto jovem, tão cheio de amor. Antes de ele a ter destruído. Depois só houve escuridão. Dorian Gray estava morto.
B1Chapter 16 / 20429 words70 sentences
Capítulo 16: A vingança de James Vane
Chapter 16 · O Retrato de Dorian Gray · B1 Portuguese. Tip: Click on any word while reading to see its translation. Take your time with each chapter and review the vocabulary before moving on.
Chapter Summary
James captura Dorian e está prestes a matá-lo. Mas o rosto jovem de Dorian convence James de que ele não pode ser o homem que prejudicou Sibyl dezoito anos atrás. James o deixa ir.
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Comprehension Questions
4 questions
1
O que Dorian notou na faca antes de destruir o retrato?
2
O que aconteceu a Dorian quando apunhalou o retrato?
3
Qual foi o último pensamento de Dorian antes de morrer?
4