Durante anos, Dorian não conseguiu libertar-se do livro amarelo. Leu-o vezes sem conta. Comprou nove exemplares, em cores diferentes. O herói do livro tornou-se como um segundo eu para ele. Ou talvez Dorian fosse o herói, tornado realidade. Como a personagem do livro, Dorian começou a colecionar. Colecionava perfumes raros de todo o mundo. Estudava os segredos da sua criação. Colecionava joias de todos os países. Rubis, esmeraldas, diamantes e safiras. Colecionava tecidos raros e tapeçarias. Seda da China, veludo de Veneza. Passava horas a tocar música no seu piano de cauda. Estudava arquitetura e história antiga. Viajava para lugares exóticos à procura de novas sensações. Mas também procurava prazeres mais sombrios. Visitava lugares estranhos à noite. Dava-se com criminosos e marginais. Rumores começaram a espalhar-se sobre Dorian Gray. As pessoas sussurravam sobre a sua vida secreta. Jovens que o conheciam acabavam arruinados. Mulheres que o amavam terminavam em desgraça. Mas ninguém conseguia provar nada contra ele. O seu rosto permanecia tão inocente como sempre. Os anos passaram, mas Dorian não envelhecia. Aos trinta e oito, parecia exatamente igual aos vinte. A sua beleza permanecia perfeita, intocada pelo tempo. A sociedade recebia-o por todo o lado. Como poderia alguém tão belo ser perverso? Os rumores devem ser mentiras, pensavam. Mas Dorian conhecia a verdade. Regularmente, subia ao quarto trancado. Olhava para o retrato e via as mudanças. O rosto na pintura tornava-se mais velho e mais feio. Linhas de crueldade marcavam a boca outrora bela. Os olhos tornavam-se mais duros e mais astutos. Por vezes Dorian sentia horror pelo que via. Outras vezes, sentia um orgulho terrível. Tinha escapado à prisão da idade e das consequências. O retrato estava a pagar o preço dos seus pecados. Ficava de pé diante do espelho no seu quarto. Comparava o seu reflexo com o retrato. No espelho, via a juventude eterna. No retrato, via a morte da sua alma. O contraste fascinava-o. Apaixonava-se cada vez mais pela sua própria beleza. E cada vez mais fascinado pela corrupção na pintura. Era o pecado ou a consciência que fazia o retrato mudar? Não sabia, e não lhe importava. Apenas sabia que era livre. Uma noite, enquanto se vestia para o jantar, pensou em Basil. Não via o artista há muitos meses. Basil tinha ficado preocupado com os rumores. Tinha começado a evitar Dorian. Mas Lord Henry permanecia um amigo constante. Encorajava Dorian em tudo o que fazia. 'A única forma de resistir à tentação é ceder a ela,' costumava dizer Harry. E Dorian cedia a todas as tentações. Dezoito anos tinham passado desde a morte de Sibyl. Dorian Gray tinha agora trinta e oito anos. Mas não aparentava nem um dia mais de vinte. Os seus olhos estavam tão límpidos como sempre. O seu cabelo ainda brilhava como ouro. Os seus lábios ainda eram vermelhos e macios. Só o retrato sabia o que ele verdadeiramente era. Trancado no quarto poeirento. Mostrava um rosto de horror e decadência. O rosto de um monstro fingindo ser um homem. Mas enquanto ninguém o visse. Dorian Gray podia continuar a sua bela mentira.
B1Chapter 10 / 20514 words70 sentences
Capítulo 10: O livro amarelo
Chapter 10 · O Retrato de Dorian Gray · B1 Portuguese. Tip: Click on any word while reading to see its translation. Take your time with each chapter and review the vocabulary before moving on.
Chapter Summary
Lord Henry dá a Dorian um estranho livro amarelo sobre um jovem parisiense que busca beleza e prazer. O livro fascina e corrompe Dorian.
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Comprehension Questions
4 questions
1
O que Dorian começa a colecionar, inspirado pelo livro amarelo?
2
Por que a sociedade continua a aceitar Dorian apesar dos rumores sombrios sobre ele?
3
O que vê Dorian quando visita o retrato no quarto trancado?
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